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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

modos de estar na vida



"Jazz é uma maneira de estar na vida. Swing é outra.
A Torre de Belém não tem swing; os Jerónimos têm swing.
Ronaldo não tem swing; Messi tem swing."

Não sei se concordo com os critérios dele mas, como eu, tal como o outro, não acredito num deus que não saiba dançar, acho que faz todo o sentido ver as coisas deste modo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

tomei nota... #1

Li ontem aqui um texto de Rui Bebiano , sobre o qual é bom reflectir e é bom que não nos esqueçamos...
Não deixemos que nos tornem "tão infelizes, monocórdicos, repetitivos", que nos façam perder de vista a beleza das coisas e nos tornemos "mais pequenos, mais submissos".
(Quadro de Renoir)
"...Combinar a beleza da criação e da contemplação, por um lado, com o empenho solidário na mudança do mundo, por outro, só se consegue através de uma luta dura, diária, na qual temos de nos esforçar por derrotar o mal e, pelo meio, não perder a humanidade."

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

claro como água...


YALE, CAMPO DE OURIQUE

Miguel Sousa Tavares (in Expresso, 29/9/2012)


«Quando o Governo subiu o IVA de 13 para 23% na restauração, António, temendo as consequências da subida de preços no seu pequeno restaurante de Campo de Ourique, resolveu encaixar ele o aumento...

sem o repercutir no preço das refeições. Aguentou até poder, mas mesmo assim a clientela começou a baixar lentamente: parte dela, que lhe assegurava umas trinta refeições ao almoço e metade disso ao jantar, era composta por funcionários públicos, que trabalhavam ali ao lado e cujos salários e subsídios tinham diminuído, com a medida destinada a satisfazer as condições do "ajustamento" da economia.

Quando reparou que Bernardo, um cliente fiel e diário, tinha passado a frequentar os seus almoços apenas três vezes por semana, António tomou aquilo como sinal dos tempos que ai vinham: sem outra alternativa, despediu a ajudante de cozinha, ficando apenas ele e a mulher no serviço de balcão e mesas e, lá dentro, um cozinheiro sem ajudante. Mas a seguir notou que também Carolina e Deolinda, que vinham almoçar umas três vezes por semana, agora vinham apenas uma e pouco mais comiam do que saladas ou ovos mexidos. Em desespero, teve de subir os preços e Eduardo, um reformado cuja pensão tinha diminuído, desapareceu de vez. Foi forçado a cortar drasticamente nas compras a Francisco, o seu fornecedor de peixe, e a atrasar-lhe os pagamentos: com cinco outros restaurantes, seus clientes, na mesma situação, Francisco viu o seu lucro reduzido a zero e optou por fechar a sua pequena empresa e inscrever-se no Fundo de Desemprego.


Mais tarde, quando Gaspar, o ministro das Finanças, anunciou mais um aumento do IRS e declarou que o "ajustamento" não se faria através do consumo interno, também Bernardo desapareceu para sempre e, depois de três meses sentado na sala vazia, dando voltas a cabeça com a mulher e tendo ambos concluído que já era tarde para emigrarem, António tomou a decisão mais triste da sua vida, encerrando o restaurante Esperança de Campo de Ourique e indo os dois engrossar também o rol dos desempregados a conta do Estado.


Apesar de ter gasto parte, agora importante, das suas poupanças de anos a anunciar o trespasse, António não conseguiu que ninguém lhe ficasse com o estabelecimento e não lhe restou alternativa senão entrega-lo ao senhorio Henrique, para não ter de pagar mais rendas. Quando desabou, demolidor, o novo aumento do IMI, já Henrique tinha desistido de conseguir alugar o espaço ou mesmo vender o imóvel: não pagou e deixou que as Finanças lhe levassem o prédio.


Assim se concluiu, neste pequeno microcosmos económico de Campo de Ourique, o processo de "ajustamento" da economia portuguesa: vários trabalhadores reconvertidos a marmita, cinco outros desempregados, duas pequenas empresas encerradas e um senhorio desprovido da sua propriedade.


Nessa altura, Gaspar, Rufus e Selassie deram-se conta, com espanto, de várias coisas que não vinham nos livros: que, apesar de aumentarem sistematicamente a carga fiscal, podia acontecer que a receita do Estado diminuísse; que os sacrifícios sem sentido implicavam mais recessão e a recessão custava mais caro ao Estado, sob a forma de mais subsídios de desemprego a pagar; que uma e outra coisa juntas não tinham permitido, ao contrário das suas previsões, diminuir o défice ou a dívida do Estado; e que o que mantinha o país a funcionar não eram as grandes empresas e grupos económicos protegidos, nem sequer os 7% de empresas exportadoras, mas sim os 93% de empresas dirigidas ao mercado interno, que respondiam pela esmagadora maioria dos empregos e atendiam as necessidades da vida corrente das pessoas comuns.


E, passeando melancolicamente nos jardins de Yale, numa chuvosa manhã de Thanksgiving, Rufus e Selassie deram com um velho cartaz colado a uma parede, desde os tempos da primeira campanha eleitoral de Bill Clinton: "É a economia, estúpidos!"»



terça-feira, 2 de outubro de 2012

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«Tom aprendera com José Quintero que não se deve roubar pão – o motivo é de ordem religiosa; e que dirigir uma peça ou um filme é procurar algo de tímido e de interior, escondido nos bosques do nosso ser.
Era o começo do Outono e as folhas desprendiam-se das árvores; à noite fazia frio. No teatro, fazia sempre frio. Tom tinha visto tantas raparigas a lerem o papel, que começava a sentir-se aborrecido. Uma das actrizes profissionais do primeiro dia…
A rapariga foi a última da tarde. Ele viu-a atravessar a sala e subir para o palco sem grande interesse. Era bonita, o cabelo louro comprido, o corpo magro, vestia um casaco preto de cabedal que tirou antes de sentar-se. Por baixo vestia uma T-shirt branca, sem mangas, e uma saia preta que lhe ficava alguns centímetros acima do joelho. Botas pretas. Parecia cansada.
Tom conhecia aquele cansaço. Não era o cansaço de quem trabalhara muito naquele dia, de quem trabalhara muito na véspera, mas a simples dor de estar vivo. Devia ter vinte e nove ou trinta anos. Ele conseguia ver a sua história nos olhos cor de avelã. O trabalho num bar para pagar os estudos, um ou dois bons papéis, inúmeras audições e depois nada. Pequenos papéis em peças que saíam de cartaz ao fim de umas semanas e nada.»

[in O Lago, de Ana Teresa Pereira, Relógio d'Água, 2011]

terça-feira, 3 de abril de 2012


Texto roubado daqui


"3 de abril                                                                                                                                                 
Camões cresceu, fez-se homem. Os dentes, que ao princípio, quando nos apareceu aqui, há cinco meses, não passavam de uma fina serrilha, tornaram-se em armas poderosas, e as patas trangalhadanças, que antes pareciam não saber andar na mesma direção, aprenderam a desferir golpes violentos e certeiros, capazes de derrubar qualquer adversário. Já não se esconde debaixo das camas quando a Pepe lhe entram as fúrias do seu oteliano ciúme. Agora responde de igual para igual e as rixas são tremendas. Pepe não quer perder a autoridade deprimis occupantis e, pelo que se vê, Camões anda a querer tomá-la para si, embora tenha sido o último a chegar. Camões é mais alto, Pepe mais maciço. Estão um para o outro. Mas Pepe tem o costume de lutar ladeando um pouco a cabeça, e isso é mau para ele, além de representar, se o manual diz certo, um primeiro sinal de fraqueza: como um karateca cinturão negro, Camões desfere fulminantes patadas que já mais de uma vez foram alcançar e ferir o olho direito de Pepe. É difícil separá-los quando brigam, parece que levam lá dentro, acumuladas, todas as raivas do mundo. Já quase desespero de fazê-los entender que nesta casa há lugar para todos.                                       
(Atenção: embora os nomes sejam humanos, é de cães que estou a falar. O que me deixa ainda uma certa esperança.) Não é a primeira carta anónima que me entra em casa. Mas, ao contrário de outras, repugnantemente sujas pelos próprios insultos com que querem atingir-me, esta, com limpeza e confiança, diz-me: «Precisamos que continues a escrever.» E, afinal, nem é tão anónima assim.                                                                                  
Traz assinatura: Um camarada.                                                                 
In Cadernos de Lanzarote, Diário IV"                                                          

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão."

Vergílio Ferreira, in "Pensar"

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

...




 ... "Fernando Pessoa abriu a porta do quarto, saiu para o corredor. Não se ouviram os seus passos. Dois minutos depois, tempo de descer as altas escadas, a porta de baixo bateu, o besouro zumbira rapidamente. Ricardo Reis foi à janela. Pela Rua do Alecrim afastava-se Fernando Pessoa. Os carris luziam, ainda paralelos."...

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ed. Caminho, 1984



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

neve


... "O homem não se afastou da porta para a deixar passar. Era alto e vestia um roupão azul.
Rose disse que queria um quarto e durante algum tempo só teve consciência da neve a cair à sua volta.
O homem olhava-a com uma expressão de surpresa. Disse finalmente:
Há muitos anos que esta casa não é uma estalagem.
Ela olhou para o letreiro e esteve quase a dizer algo, mas o letreiro encontrava-se apagado, na verdade era quase invisível, mal conseguia distinguir as letras. Olhou para trás, para a praça coberta de neve, e estremeceu.
De qualquer forma preciso de um quarto, disse.
Ele afastou-se para o lado e deixou-a entrar."...

Ana Teresa Pereira, A neve, Relógio d'Água, 2006

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

a propósito...

Mário Viegas diz Almada Negreiros (excerto)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

outros tempos ?!....

"... Esse homem nasceu nas berças, passou pelo seminário, foi para Coimbra. Que mais queriam? Volúvel, Henrique Mendonça via agora em Salazar o produto típico da universidade coimbrã. Olha para as praxes dos estudantes, ficas a saber tudo sobre prepotência e tirania. Ah, como eu odeio Coimbra, berrava ainda mais alto o Mendonça, o berço da medíocre e burocrática burguesia nacional.  ...."

Maria Isabel Barreno, in Crónica do Tempo, Editorial Caminho, 1990

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

liberdade de escolha


"Era uma livraria que vendia um único livro. Havia 100 mil exemplares numerados do mesmo livro. Como em qualquer outra livraria os compradores demoravam-se, hesitando no número a escolher."

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Brecht, Editorial Caminho, 2004.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

quadras do Aleixo


Vós que lá do vosso Império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
querer um Mundo novo a sério.





António Aleixo
Retrato de Tóssan - 1943

terça-feira, 16 de agosto de 2011

pois é...

"Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem"


Bertold Brecht

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cidade dos Outros

"Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta"

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Silêncio

"Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas "


Eugénio de Andrade 

terça-feira, 26 de julho de 2011

os outros

Um dia, já lá vão uns bons anos, escrevi à Fernanda Botelho.
Tinha gostado muito do romance Esta noite sonhei com Brueghel e fiquei terrivelmente   perplexa quando soube que iam transformá-lo em série televisiva... Afinal, depois achei que não tinha resultado assim tão mal...
Foi por tudo isto que decidi escrever-lhe, até porque nessa altura tinha feito aquilo que faço normalmente, que é o "ciclo de....", quando algum autor me agrada especialmente.

E obtive resposta:


terça-feira, 12 de julho de 2011

ouvir os outros

"Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar
."


Bertold Brecht 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

quotidianos

"- Deixa-me na outra esquina.
Ele acelera de novo, trava mais adiante, põe o carro em ponto morto e declara:
- Bravo! Ganhas coragem de semana para semana. Por este andar, não tardo a deixar-te mesmo à porta de casa.
- Quem sabe? - inclino-me para examinar no espelho retrovisor qualquer eventual vestígio comprometedor... "


    Fernanda Botelho - Esta noite sonhei com Brueghel , 1987